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Procura-se

Solteira. Para algumas pessoas isso quer dizer o mesmo que: a procura de alguém. Não é! Solteira é um adjetivo que indica apenas que não estamos vivendo nenhum compromisso amoroso. Mas tudo bem. Não vamos discutir com a sociedade.
O caso é que sendo uma solteira quase convicta, estava outro dia ouvindo um desses programas para onde as pessoas ligam, mandam cartas e emails a procura de um par. A pessoa que estava comigo, imediatamente teve a brilhante idéia de me sugerir o seguinte: “Por que você não escreve para lá?” A resposta obvia seria: “Por que não estou procurando ninguém!” Mas eu tinha certeza que se dissesse isso ouviria uma dúzia de argumentos que justificariam, muito eloqüentemente, por que eu deveria estar a procura de alguém e, por conseguinte, entrar em contato com o tal programa.
Não argumentei, ao contrário, concordei! Com um dos meus melhores sorrisos apanhei caneta e papel e comecei a escrever o meu perfil. Nem levei cinco minutos:
Sou gorda, 118 quilos, mal distribuídos em 1 metro e 67 centímetros. Sou universitária e bolsista, ou seja, pobre. Não tenho uma profissão, nem casa própria, nem carro. Sou míope, tenho astigmatismo e glaucoma! Meus joelhos são tortos. Sou morena clara, e quando digo isso, entenda-se afro descendente desbotada! Tenho olhos e cabelos castanhos. Não bebo, não tenho religião. Fumo. Gosto de anime, mangá, gatos, futebol e música. Sou fã de Michael Jackson e Backstreet Boys. Eu canto no banheiro, acordo de mau humor, sou rabugenta, gosto de reclamar. Sou politicamente incorreta, como carne, falo palavrão, troco lâmpada, faço pequenos consertos domésticos, mato baratas. Jogo vídeo game, leio, filosofo e assisto jornalismo. Escrevo e leio só pra me distrair.
Quando terminei e apresentei a quem estava comigo, a pessoa fechou a cara e me devolveu o papel com um resmungo “Precisava ser tão sincera?” eu sorri e respondi: “ A idéia foi sua!”

Decidida!


Tomei uma decisão. Dessas que se toma assim de repente mesmo. Acordei determinada. Escovei os dentes pensando nisso e já no café da manhã, estava lá, a decisão tomada. Alimentei o gato… Meu gato preto. Preciso alimenta-lo todos os dias ou o coitado morreria de fome, não presta nem pra caçar um rato. Mesmo que caçasse não encontraria nenhum. Dizem que os ratos fogem dos lugares onde há gatos. Meu gato não sabe disso, mas não caçaria, mesmo que houvesse ratos. Acho-os animais simpáticos, os ratos, os camundongos na verdade. Eles têm grandes olhos redondos, os camundongos, olhos simpáticos. Os gatos também são. E são amigáveis, os gatos… Pelo menos os que eu conheço. Conheço muitos gatos. Encontro gatos em toda a parte por onde eu ando. Meu gato esta miando, acho que não o alimentei o suficiente, talvez esteja querendo alguma outra coisa, talvez mostrar que encontrou um camundongo, um desses de olhos simpáticos… Engraçado, pensando bem, tenho a impressão que esqueci alguma coisa… Mas primeiro verei o que quer o gato…

Perda

Ele ardia em febre. Com esforço, ela conseguiu guiá-lo para a cela e o deitou com cuidado na cama de concreto presa a parede. Limpou o suor do rosto pelo esforço já que o homem era bem mais alto e robusto do que ela, e fitou mais uma última vez aquele rosto querido e familiar. Saiu da cela depois, trancando-a sem nenhum ressentimento.

Tinha que ser assim e ela sabia. Sentou-se do outro lado do corredor e recolheu os joelhos, observando o homem na cama. Ela riu depois e afastou o cabelo do rosto, tentando prendê-lo no alto para afastar o calor. Era verão e estava muito quente naquela tarde.

– Sabe o que eu lembrei? Daquele verão que comemos o bolo da tia. – Ela começou a falar e viu o homem mexer a cabeça, mesmo que não pudesse vê-la dali. Sua voz ecoava no pavilhão. – Ela ficou mesmo brava, mas estava tão gostoso… Ah, tanto tempo que não como um bolo.

Escutou a tosse do outro como uma tentativa dele rir. Queria ir lá dentro e escutar seus sussurros, mas sabia que não podia. Sua sobrevivência dependia disso. Quando tudo aquilo começou, as pessoas doentes que devoravam as outras, tudo virou um caos. Estava viva por causa daquele homem e não cometeria um erro bobo como se aproximar dele. Ele tinha sido mordido enquanto tentava salvar aquele outro cara que só os prejudicou. Ele ia morrer e se tornar um deles. Ela sabia.

O tempo de transformação variava muito, ela não tinha certeza de quando aconteceria. Aquele homem sempre dizia que se algo acontecesse, ela deveria matá-lo, ele não queria se tornar um deles. Ela pensava que era algo que tinha que ser feito, um tiro na cabeça e a criatura estaria morta de uma vez por todas. Mas aquela solução não poderia acontecer com ele. Ela tinha perdido tudo, ela não queria perdê-lo.

– Teve aquele dia que comemos todas as frutas dela também… Ela correu atrás de nós com aquela vara, querendo nos dar uma boa surra… E no fim, acabou fazendo um daqueles deliciosos pudins. Achávamos aquela vida tão pacata, mas o que não daríamos para estar lá? Há tanta emoção nos dias de hoje, que nem sabemos se vamos sobreviver…

Sua barriga roncou e ela ignorou a fome. Pensar em doces a deixava com vontade e lembrava que há muito tempo não fazia uma boa refeição.

O homem teria dado instruções para que ela seguisse rumo ao Norte, rumo ao calor dos trópicos. Ele acreditava que os mortos que vagavam pelas ruas em busca de carne fresca, iriam ceder ao calor dos trópicos e acelerar seu processo de decomposição. Era o sonho de uma vida melhor.

Ela olhou para o corredor da prisão. Quem poderia imaginar que um lugar como aquele pudesse ser seguro? O chão de pedra estava manchado de sangue seco de meses. Quando tudo começou e o caos se instalou, ela acreditava que alguém havia libertado os homens daquele bloco. Não foi ao que aconteceu aos que estavam no outro bloco, que a inanição os levou e eles voltaram como aquelas criaturas. Eles estavam presos em suas celas, caminhando de um lado pro outro, não havia perigo, mas ela trancou as portas de acesso por prevenção.

O gemido do homem chamou sua atenção. Queria se levantar e ir até a grade, mas manteve onde estava, apenas olhando-o morrer lentamente. Lágrimas vieram a seus olhos e deslizaram pelo seu rosto sujo. Fazia muito tempo que ela não chorava, não havia muito tempo para lamentação quando sua vida dependia do seu silêncio e se sempre estar em movimento. Sozinha, ela não pode evitar o choro de tristeza.

A noite chegou e ela continuava lá, sentada. O homem tinha parado de se mexer e morreu pela febre alta. Passos e lanternas anunciaram a chegada de seus dois amigos. O grupo de seis pessoas estava se mantendo com três. Um dos amigos tocou os cabelos dela e o outro apontou a lanterna para dentro da cela. Não havia ainda nenhum sinal de volta do amigo falecido.

– Você atirou nele? – Perguntou o homem que estava próximo a cela. Agora ele era o mais alto do grupo, de cabelos muito escuros, usando uma roupa verde que deveria ter pertencido a algum funcionário da cadeia. Ele verificou se estava bem fechada e apontou a lanterna na direção da garota.

– Não… – Ela murmurou num fio de voz. A arma estava no chão. Sabia que deveria matar o homem dentro da cela, viver como um morto ambulante não era nenhuma ideia de diversão pra ninguém. Seria até mesmo respeitoso o livrar do sofrimento que sentiria, com a eterna Fome.

– Sabe que deveremos fazer isso assim que ele voltar.

Ela apenas concordou com a cabeça e o amigo que estava a seu lado, abaixou-se do seu lado e a amparou em seus braços. Ele era franzino, de pele escura como a noite e também usava uma roupa verde.

Os três amigos esperaram. Quando o homem dentro da cela gemeu, todos se levantaram e apontaram as lanternas para ele. A feição gentil estava transformada pela Fome e os olhos sem vida os olhavam, um pouco esbranquiçados. Lentamente, ele se ergueu e foi até a grade, estender seus braços tentando alcançar um deles para se alimentar. Os três sentiram muito por aquele momento. O homem de cabelos escuros apontou o revolver calibre .38 que tinham roubado de um policial que fora devorado e disparou.

O ruído seco do disparo ecoou pelo pavilhão durante muito tempo. O corpo do amigo, que tinha voltado dos mortos, caiu para trás, sua cabeça aberta pelo disparo a curta distância. Ele abaixou a arma, uma lágrima deslizando solitária por seu rosto. Escutou os soluços desesperados da garota e evitou olhá-la.

– Me desculpe, Adriana. Está feito. Seu irmão vai descansar em paz agora.

– Vamos descansar um pouco. – Sugeriu o homem que amparava a garota nos braços. – Amanhã daremos um enterro a ele.

Aquela era apenas uma noite das muitas que eles tinham vivido e que teriam que viver. Nenhum dos três sabia se iria chegar ao Norte, mas eles iam tentar. Deviam por suas próprias vidas e pelas vidas perdidas dos seus amigos que acreditavam naquele plano do Sol dos trópicos.
FIM.

Observadora

Outro dia vi uma borboleta amarela. Era pequena e tinha as asas meio quadradas. Estaqueei no meio da rua para vê-la, quase fui atropelada. Morro de medo de ser atropelada, por isso eu levo muito tempo para atravessar as ruas, olho para todos os lados. Eu sempre olhos para os lados, acho que tenho mania de perseguição. Mas também sou distraída, me perco com facilidade, nos pensamentos, nas ruas, frequentemente não sei onde estou e tenho que pedir informação. Não gosto de pedir informação, não gosto de falar com estranhos. Os estranhos costumam me achar estranha. Como no outro dia mesmo… Acharam que eu era estranha por que estava estaqueada no meio da rua. Mas não era nada, eu apenas estava observando uma borboleta amarela sabem? Uma de asas meio quadradas…

Zona da Amizade

No início só existia o amor. Mas os seres humanos gostam de complicar e um belo dia alguém decidiu inventar a Zona da Amizade. Não se sabe se o criador era homem ou mulher, mas temos conhecimentos de que ambos costumam trancar pessoas no tal local desagradável, onde é cheio de angústias, medos, problemas pessoais e brigas familiares.

Você conhece aquela pessoa incrível, charmosa, delicada, divertida, inteligente e que gosta de todas as mesmas coisas que você gosta. No entanto você não quer apenas uma relação carnal, quer um relacionamento sério, afinal, ele ou ela é diferente e merece mais do que qualquer um por aí. Nessa hora todos nós temos a ideia de em primeiro lugar iniciar uma amizade, tomando então a pior decisão de nossas vidas.

Se já ouviu a frase: “mas você é só meu amigo”, meus pêsames, você é um dos presos para todo o sempre na Zona da Amizade. Esse alguém com o qual está doido para fazer sexo não tem sequer um mínimo considerável de atração por você. Esqueça, sem chances, já era. Dê a meia volta e fuja enquanto ainda é tempo de preservar sua dignidade.

Caso decida permanecer apenas como um amigo notará fatos interessantes. Primeiro aquela pessoa vai te apresentar amigos e você vai conhecer outros presos na Zona da Amizade no primeiro aperto de mão e troca de olhares. Quando o seu ex-amor começar um relacionamento os chamará para conhecer quem é. Enquanto todos conversam os amigos vão notar que o namorado ou namorada não sabe sobre a pessoa a metade do que vocês sabem, o que é óbvio, já que gastam o tempo juntos fazendo sexo.

Como sair da Zona da Amizade? Não sei, eu nunca consegui, não conheço ninguém que tenha conseguido e você devia desistir disso, poupando tempo, paciência e saúde mental. No entanto, se resolver arriscar e descobrir a resposta, por favor, não deixe de me contar. Tenho algumas contas pendentes perdidas pelo meu passado com relação ao assunto.

Clichê

Cansei dos velhos textos nos cadernos novos
Da repetição incessante das mesmas palavras
Do barulho infernal das buzinas dos carros
De todas as pessoas com as mesmas caras

Agora eu só queria ir embora,
Embora ainda fosse pra voltar.
Ir pra conhecer gente nova
Retornar com algo novo pra contar

Quero encher de novos textos cadernos velhos
Aprender palavras que nunca ouvi falar
Receber de um sábio um grande conselho
Voltar à minha vida e ter algo a adicionar.

Colecionadora

canecasEu coleciono canecas. Gosto delas. Acho-as mais interessantes que as xícaras. Gosto dos formatos e das cores e do fato de não precisarem de um pires. Não simpatizo com os pires. Acho-os sujeitos muito chatos. Coleciono canecas, é o que faço. Canecas onde bebo café, que, aliás, adoro. Café preto, forte, quente e doce. Às vezes com leite, pela manhã, quando o paladar ainda não está apurado. Mas não gosto de café com leite. Leite com achocolatado é melhor. Adoro achocolatado. Chocolate. Coisa que não rejeito. Poderia viver apenas de chocolate. Mas não sou de comer muito, embora eu seja gorda. Sou gorda por que já comi bastante, na minha adolescência. Agora não tenho muita fome, esqueço-me de comer. Esqueço muitas coisas. Outro dia mesmo esqueci as chaves de casa, tive que esperar do lado de fora. Eu gosto da arvore que tem do lado de fora. É grande, mais alta que a minha casa… Mas prefiro mesmo ficar em casa, ouvindo música e bebendo café. Adoro café. Bebo café nas minhas canecas. Já disse que coleciono canecas?

Alienação – Parte I

A Medida

A alienação total
Numa rotação infinita
Das coisas de meu pequeno ser
Uma imagem obscura
Do mundo que há
Em um pequeno espelho brilhante
Um reflexo claro e límpido
De uma cor perdida
No fundo de um
Adoravelmente
Puro poço
As migalhas de um sonho
Que tornam enormes
As lágrimas que descem
Por meu rosto
Tão claro e tristonho.

07/09/1999

*Série de poesias escrita em 1999, do alto dos 19 anos de Luh Moon.

Males

Dos meus males o melhor.
Tocar sua pele tenra,
Sentir seu perfume de roupa limpa
Escutar sua voz rouca e mansa.

Dos meus males o pior.
Não estar disposta a perder seu consolo
A carência de seus abraços calorosos
Tolerar a falta de sorrisos apenas meus.

Dos meus males o melhor.
Sua voz serena em meus ouvidos,
Os lábios curvados, um sorriso irônico,
O olhar cheio de ternura.

Dos meus males o pior.
Pois tudo que era bom dependia de ti
Dias de solidão sempre sem sentido.
Alcancei um remédio para esse vício:
Abrir mão e deixar passar.
Sem mais dores, sem mais você.

 

PS: Gostaria de ressaltar que sou uma negação com poemas, mas como encontrei isso no meu computador, nunca havia postado em lugar nenhum e estou meio sem tempo pra escrever crônicas (que é o que eu realmente gosto), vai ele mesmo. =) Espero que ao menos dê pra ler sem sentir vergonha alheia.

E ainda o amava…

O corte no supercílio me incomodava, deixava meu olho com sangue e dificultava a caça. Estava com a arma apontada e o homem a minha frente, caminhava trôpego de costas, fitando-me com algum espanto, como se não pudesse acreditar no que acontecia. Eu também não acreditava.

Nunca gostei de altura e estávamos num terraço dos antigos prédios, ventava muito sem a proteção acrílica da cidade. Ali, na cidade velha, onde o passado foi esquecido e era corroído pelas chuvas ácidas decorrentes do tempo modificado pelas grandes guerras nucleares, eram onde algumas pessoas viviam ou simplesmente se escondiam. Estava escurecendo e precisava resolver o que tinha vindo fazer.

Aquele homem era uma daquelas pessoas que se escondiam. Ele vivia na cidade nova antes, eu sei porque foi lá que eu o conheci. E foi lá que me apaixonei por ele. Claro que a vida estava sempre a brincar com todos aqueles que queriam fazer as coisas certas. Eu queria fazer a coisa certa, mas estava apaixonado e isso me tinha feito fazer coisas erradas.

Era a minha oportunidade de resolver isso, de cuidar do que deixei pra trás. Meu dedo tremeu no gatilho. A arma era entregue a todos aqueles que queriam trabalhar como caçadores de recompensas. Eu não era um bounty hunter, trabalhava na policia há mais de vinte anos, era detetive da narcóticos. A arma tinha carga pra três disparos, eles não poderiam ser desperdiçados. Um disparo era suficiente pra derrubar um robô, diziam que queimava alguns circuitos e logo os demais não funcionariam. Era a morte do robô.

– Como foi que me achou?

O homem me perguntou. Sua voz era sempre agradável pra mim. Ele, por fim, caiu sentado sujando o sobretudo de veludo que usava. Roupas tão finas para um robô, ele se vestia tão bem. Parecia assustado de verdade. Achava incrível como eles podiam refletir os sentimentos como se fossem humanos.

Kyu era seu nome. Ele era da série SS-501, um raro robô de relacionamento – pois custava uma pequena fortuna para adquiri-lo e pelo o que soube, eles eram feito por encomenda e seguiam os gostos de seus compradores. Pensar que ele pudesse ter um dono, que não eu, me deixava com ciúmes. Eu, que em toda a vida, achava estúpido as pessoas comprarem robôs para terem companheiros, agora as entendia perfeitamente. Era como se Kyu fosse real. Sua pele era quente, ele respirava, ele… Ele parecia real.

Ter feito sexo com ele fora uma das melhores experiências da minha vida. Mas agora eu me sentia um completo idiota, claro que o sexo seria fantástico, era pra isso que Kyu tinha sido criado. E ele faria seu trabalho com perfeição. Como nenhum humano poderia fazê-lo.

– Eu não sabia. Mas agora eu sei e por isso eu vim pra cá.

– Está brincando, não é? Não pode querer que eu acredite nisso.

– Eu não tenho porque mentir se está com uma arma apontada pra mim. Juro que eu não sabia.

– Não jure. Você não pode compreender o que é um juramento, sua máquina estúpida.

Kyu me olhou, então os olhos castanhos fitaram o chão, o cabelo negro dele caindo sobre seus olhos. Era como se ele tivesse ficado triste, mas ele não podia ficar. Ele não tinha sentimentos, era um robô, tudo era simulado. Era pra isso que ele tinha sido feito.

– Então, me desculpe. – Kyu murmurou e ergueu os olhos pra mim. – Me desculpe por ser ignorante da minha condição, por não ter consciência e por desejar ser de verdade.

Isso não bastaria para meu perdão. Tenho certeza que ele sabia. Dei alguns passos em sua direção, a pistola ainda apontada pra ele. O vento naquela parte da cidade tinha um cheiro forte e provavelmente estava contaminado. Eu senti minha blusa sacudir juntamente com meus cabelos curtos.

Kyu era a pessoa mais bonita que já tinha conhecido, ainda que o termo “pessoa” não pudesse ser aplicado a ele. Seu rosto tinha a simetria perfeita, seus cabelos eram macios e perfumados, seus olhos eram puxados como se ele fosse algum oriental, seus lábios eram quentes e saborosos. Por que eu tinha que amá-lo tanto?

– Se queria se desculpar, por que correu tanto? Como quer que eu acredite em você se eu sei que você tem que fazer atualizações constantes?

– Eu estava com medo. Eu estou com medo. – Ele murmurou. – Está olhando pra mim como olhava pra aqueles bandidos que prendeu… Não tem ideia de como isso é assustador.

– Você não pode sentir medo. É uma máquina.

– Então… Me explique por que eu corri? Por que estou com medo do que possa fazer?

– Por que deve ter um chip ou um programa pra responder a isso. Você não tem sentimentos, mas já deve saber disso.

Me aproximei mais. O sangue pingava do meu rosto. Tinha me cortado num ferro velho de alguma estrutura que desabou dentro do prédio, enquanto estava atrás de Kyu. O robô tinha mais de 1,80 metro de altura e corria desastrado. Tinha sido estranho ver isso, todos os momentos que me pegava olhando como Kyu se movimentava, era com tanta leveza para alguém tão alto. Sou menor do que ele e por essa razão eu amava estar envolvido em seus braços.

Esses pensamentos não me ajudariam agora. Não podia mais hesitar pois sabia o que faria se hesitasse. Meu dedo tocou de leve o gatilho, disparando o projétil e a bala alojou-se no peito de Kyu. Ele não emitiu nenhum ruído de dor, não era como se ele pudesse sentir dor, apenas olhou a bala em seu peito e depois me olhou. Vi quando seus olhos piscaram, os curtos transparecendo nele.

Kyu desabou para trás, seu corpo movendo-se em pequenos espasmos. Seus dedos arranhavam o chão sujo e escutei um suspiro de dor.

Eu o amava e o odiava. Eu não poderia amar uma máquina, mas o amava com todas as forças. Não podia estar ligado a ele embora fosse a coisa que mais quisesse. Kyu pertencia a alguém, ele nunca seria meu porque ele voltaria para seu dono. Kyu não podia entender como eu me sentia porque ele não tinha sentimentos.

A arma caiu da minha mão em seguida. Me considerava uma pessoa lógica, mas o que tinha feito? Era necessário que Kyu fosse desligado daquela forma? As unhas dele ainda arranhavam o chão e corri até ele, ajoelhando-me a seu lado. A cabeça dele tremia e ele me olhou.

O abracei enquanto os últimos espasmos elétricos passavam por seu corpo e de sua boca saiam palavras e ruídos sem sentido. O abracei com força. Não queria nada disso, talvez quisesse antes, agora não queria mais. Kyu era sempre capaz de impor aqueles pensamentos sem coerência na minha mente.

Ele parou de se mexer e um leve cheiro de queimado saia dos lábios entre abertos. Escondi minha cabeça no ombro dele e o apertei forte. Eu fiz o certo, só fiz isso porque não suportaria a ideia dele ser chamado por seu dono.

O robô foi desativado. Agora era uma sucata vestida em roupas caras. E eu ainda o amava.

FIM.

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